A carne, a soja, e nosso impacto ecológico nos biomas brasileiros

O que vem à mente quando você entende a palavra ‘soja’? A soja faz-lhe pensar nos veganos, nas pessoas com intolerância à lactose, ou a uma nova moda ou tendência? De facto, a grande maioria da soja que os agricultores cultivam está alimentando a pecuária, especialmente as galinhas e os porcos, porque é uma das melhores maneiras de fornecer proteína a estes animais. Assim os omnívoros comem (indiretamente) a maioria da soja no mundo. 

É verdade que o consumo das bebidas à base de plantas e de alimentos vegetais tem aumentado muito nos últimos anos, sobretudo no Ocidente, e talvez o alimento mais famoso deste grupo é a soja, utilizada na alimentação de maneiras inúmeras – tofu até ao leite de soja – e cada vez mais pessoas substituem os produtos animais pelos produtos vegetais como a soja. Porém, é possível que o consumo destes produtos seja a causa da devastação ecológica que acontece no Brasil e na América do Sul. 

Embora a soja seja cultivada na Europa, a maioria da soja que os europeus comem vem dos Estados Unidos, da Argentina e do Brasil. Grandes estabelecimentos e restaurantes populares no Reino Unido vendem a carne dos animais que comeram a soja brasileira. O problema é que é difícil dizer se a soja vem ou não duma região desmatada: a soja vem frequentemente do Cerrado, um grande bioma ao sul da Amazônia, singularmente rico em biodiversidade. Esta savana sofre urbanização e desmatamento provocado muitas vezes pela agricultura. Certamente o desmatamento ameaça o bioma, mas oferece também risco às populações indígenas que moram no Cerrado. Mesmo que a destruição da savana seja alarmante, estas ações para criar mais espaço para cultivar a soja e outras plantas são legais no Cerrado (mesmo se não são legais na Amazônia). Por isso, as empresas podem continuar a incendiar a vegetação para subir os seus rendimentos sem enfrentar uma ação judicial. 

Se você discorda com o desmatamento desta região, o que pode fazer? Alguns restaurantes no Reino Unido compram ‘créditos’ para ajudar certas fazendas a cultivar a soja de maneira mais sustentável – um pouco como a ideia da compensação de emissões de carbono – mas não resolve diretamente o problema. É possível que a melhor maneira de reduzir o desmatamento seja diminuir o consumo de animais alimentados pela soja, diminuindo globalmente a demanda da cultivação da soja. Alimentar proteínas vegetais aos animais antes de comer a proteína animal é um sistema muito ineficiente tendo em conta a utilização do terreno e da água, em vez de comer diretamente a proteína vegetal. 

É talvez melhor comprar os produtos que contêm a soja europeia para evitar a possibilidade de contribuir para a desflorestação no Brasil. O presidente Macron foi confrontado com a crítica do presidente Bolsonaro quando disse recentemente que comprar a soja brasileira seria tolerar o desmatamento: o Bolsonaro constatou que a Amazônia é importante para todo o mundo, mas a Amazônia pertence aos brasileiros e não gosta da interferência da comunidade internacional. Será que os europeus têm o direito de escolher como usar as florestas e savanas brasileiras? Não há uma solução fácil porque não está bem concordado se a Amazônia e o Cerrado pertencem ao mundo e todos os humanos porque a perda dos ecossistemas afetaria todo o mundo, aos brasileiros porque os terrenos estão no território brasileiro, ou às populações indígenas que lá moram há milhares de anos? Qualquer que seja a resposta, o desmatamento continuará indubitavelmente até que a nova legislação proteja a natureza no Brasil. 

Cameron Smith

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